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A falácia genética: quando pensamos que pensamos

  • Foto do escritor: JVK
    JVK
  • 12 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 2 de set. de 2025

Vivemos rodeados de informação, mas também de atalhos mentais que nos poupam esforço. Um dos mais perigosos é a chamada falácia genética. O nome parece complicado, mas a ideia é simples: rejeitar ou aceitar uma informação apenas por quem a disse, sem olhar para o conteúdo. É o gesto automático de descartar um argumento porque “vem da esquerda” ou “da direita”. É desconfiar de um estudo porque foi financiado por uma empresa, ou acreditar num boato porque partiu de alguém em quem confiamos.


À primeira vista, pode até parecer razoável. Ninguém tem tempo para verificar tudo, e avaliar a origem de uma mensagem é uma forma rápida de decidir. Mas este atalho não é inocente. Por detrás dele há mecanismos profundos da mente, que explicam porque somos tão fáceis de manipular.


A psicologia moderna já mostrou que não pensamos de forma linear e racional, como gostamos de acreditar. Daniel Kahneman, Prémio Nobel, explicou que o cérebro funciona em dois modos: um rápido, intuitivo, emocional; outro lento, analítico, exigente.


O primeiro está sempre em alerta e consome pouca energia; o segundo gasta recursos e cansa. O problema é que, na vida real, é quase sempre o primeiro que domina. Quando estamos cansados, distraídos ou saturados de informação — e quem não está? — deixamos que o instinto decida por nós.


E o instinto não se guia por lógica, guia-se por atalhos. É aqui que entra a falácia genética. O cérebro prefere rejeitar uma ideia pelo rótulo em vez de gastar energia a analisá-la. Parece poupança, mas é um convite aberto à manipulação.


A neurociência tem provas disto. Em experiências com ressonância magnética funcional, os investigadores observaram que, quando as pessoas são confrontadas com opiniões contrárias às suas convicções políticas, a amígdala — a região ligada ao medo e à raiva — dispara imediatamente. Ao mesmo tempo, o córtex pré-frontal, responsável pelo pensamento crítico e pela ponderação racional, fica menos ativo. Em linguagem simples: reagimos com emoção antes de raciocinar. A lógica chega tarde, se chegar.


Mas não é só a emoção que nos prega partidas.


Existe também o peso da disonância cognitiva — aquele mal-estar que sentimos quando uma informação põe em causa as nossas crenças. Para aliviar essa dor mental, o cérebro faz tudo para manter a coerência. Prefere distorcer os factos do que admitir que estava enganado. Há décadas, um estudo famoso mostrou isso de forma quase caricatural: um grupo religioso acreditava que o mundo ia acabar numa data específica. A profecia falhou, mas em vez de desistirem, os fiéis convenceram-se de que, com a sua fé, tinham salvado a Terra da destruição. A crença saiu reforçada pelo fracasso. O mesmo mecanismo está por trás da falácia genética: quando um argumento ameaça a nossa visão do mundo, é mais fácil rejeitá-lo com um rótulo do que encarar a dúvida.


E depois há a memória — esse arquivo que acreditamos ser fiel, mas que na verdade é maleável. Elizabeth Loftus, uma das maiores especialistas neste campo, mostrou que basta sugerir um episódio fictício para que muitas pessoas passem a “lembrar-se” dele com detalhes. É assim que se criam falsas memórias. Agora imagina este fenómeno aplicado em massa, através de narrativas políticas ou mediáticas. Quando alguém insiste que “aquela notícia era fake” só porque veio de uma fonte considerada inimiga, o cérebro pode acabar por reescrever a lembrança. Dias depois, a pessoa recorda a informação já distorcida, como se a falsidade tivesse estado lá desde o início. A falácia genética não só filtra o presente, como reconfigura o passado.


É por isso que campanhas de desinformação funcionam tão bem. Não precisam de convencer de uma verdade concreta, basta colar etiquetas. “Isso é propaganda globalista”, “isso é manipulação dos conservadores”, “isso vem da indústria”. E milhões de cérebros, em modo automático, rejeitam ou aceitam sem pensar. A Guerra do Iraque foi justificada por “armas de destruição massiva” que nunca existiram, mas ainda hoje há quem guarde essa versão como memória real. Durante a pandemia, vacinas comprovadas foram rejeitadas apenas porque vinham “da indústria”, enquanto boatos sem provas foram abraçados porque vinham de “pais preocupados”.


Este modo de pensar tem um preço na saúde mental. Viver em constante rejeição e tribalismo gera ansiedade — porque o mundo parece sempre ameaçador. Alimenta raiva crónica — porque cada ideia contrária é percebida como ataque. E provoca isolamento — porque passamos a desconfiar de vizinhos, médicos, instituições, até da própria família. É uma erosão lenta da confiança e do bem-estar, e poucas vezes nos apercebemos de que a origem está em algo tão banal como um atalho mental.


No fundo, a falácia genética é um resquício evolutivo. Durante milhares de anos, viver em grupo significava sobreviver, e confiar em quem estava “do nosso lado” era mais importante do que analisar objetivamente cada informação. Hoje, esse instinto ancestral é explorado até ao limite por políticos, empresas e plataformas digitais que descobriram como disparar diretamente para a amígdala, sobrecarregar o raciocínio crítico e plantar memórias convenientes.


A questão que fica é se queremos continuar a viver assim, entregues a um piloto automático que nos torna presas fáceis. Pensar exige esforço, e o esforço não é popular. Mas talvez a liberdade esteja justamente aí: em desconfiar dos atalhos, em ouvir argumentos mesmo quando vêm de fontes que não gostamos, em verificar antes de recordar.


A falácia genética parece apenas uma curiosidade académica, mas é muito mais do que isso: é uma armadilha invisível que molda opiniões, fabrica memórias e destrói confiança. Identificá-la é o primeiro passo.


O segundo é mais difícil: reaprender a pensar contra a corrente, mesmo quando dói. Porque, se não formos nós a pensar, alguém já estará a pensar por nós.

 
 
 

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