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Como entrevistar um populista que vive de histeria

  • Foto do escritor: JVK
    JVK
  • 15 de nov. de 2025
  • 27 min de leitura

(um guia práctico)

Este guia mostra como o populismo explora os atalhos do nosso cérebro e porque é que o jornalismo precisa de aprender a neutralizá-los.

O espaço público está a ser colonizado por truques de psicologia barata. Políticos Populistas (como André Ventura e outros) não ganham apenas no que dizem, mas sobretudo na forma como o nosso cérebro reage ao que dizem: exploram atalhos mentais, como a heurística da disponibilidade, distorcem a nossa percepção do risco, usam a falácia genética para desacreditar tudo o que vem de “fora da tribo” e transformam entrevistas em palcos de histeria e pertença emocional.

Este guia parte de uma pergunta simples e incómoda: o que é que acontece, lá dentro da nossa cabeça, quando ouvimos este tipo de discurso?

Explica como funcionam esses atalhos mentais, o que é a falácia genética e porque é tão eficaz a destruir o debate racional, e só depois entra no terreno do jornalismo: qual é, hoje, a responsabilidade do entrevistador perante um entrevistado que vive de saturar a verdade. No final, propõe um guia prático para jornalistas que não queiram ser figurantes na peça, mas sim ajudantes do público na tarefa mais urgente do nosso tempo: voltar a aprender a pensar.

 

1. Como funciona o cérebro humano quando recebe mensagens

Antes de falarmos de Ventura, Bannon ou de jornalismo, temos de falar de nós: do cérebro humano e da forma como ele lida com informação.

O nosso cérebro não é uma máquina de lógica pura. É uma máquina de sobrevivência. Foi desenhado (ao longo de milhares de anos) para reagir depressa, não para pensar devagar.

Os psicólogos costumam falar, de forma simplificada, em dois modos de funcionamento:

  • um modo rápido, intuitivo, automático;

  • um modo lento, analítico, reflexivo.

Vamos chamá-los aqui:

  • Cérebro Rápido – o que reage no imediato;

  • Cérebro Demorado – o que pára, compara, verifica, questiona.

O Cérebro Rápido

  • julga em fracções de segundo;

  • funciona por associações (“imigrante = perigo”, “político = ladrão”, “jornalista = manipulação”);

  • adora histórias simples e imagens fortes;

  • é movido por medo, raiva, ressentimento, pertença.

O Cérebro Demorado

  • precisa de tempo;

  • confronta dados, contexto, probabilidades;

  • duvida, pergunta “será mesmo assim?”, procura fontes;

  • dá trabalho – e cansa.

Na vida do dia-a-dia, dependemos brutalmente do Cérebro Rápido. Se não o tivéssemos, não conseguiríamos atravessar uma rua, conduzir um carro ou ter uma conversa banal. Só que esse sistema rápido usa atalhos mentais – as famosas heurísticas.

E é aqui que entra a manipulação comunicacional.

 

2. Heurísticas, atalhos mentais e manipulação

2.1. O que é uma heurística?

Uma heurística é um atalho mental. Em vez de fazer contas e análises complexas, o cérebro pensa:

“Não vou medir tudo. Vou usar um truque rápido que, normalmente, funciona.”

Na maior parte dos casos é útil. Mas noutras vezes, esse atalho dá asneira – e é precisamente nessas zonas de erro previsível que a propaganda política e mediática gosta de trabalhar.

É importante sublinhar que estes atalhos não são um defeito “dos mais incultos” ou “de quem não percebe nada de política”. São mecanismos universais do cérebro humano. Acontecem a médicos, professores, juízes, jornalistas, engenheiros, gente com estudos e gente sem estudos. Uma pessoa pode ter dois diplomas e, no entanto, continuar a julgar pela impressão mais vívida, pela história mais marcante, pelo medo mais recente. A escolaridade ajuda a ter mais ferramentas, mas não nos vacina contra heurísticas: o único antídoto minimamente eficaz é estarmos conscientes de que todos, sem excepção, somos vulneráveis a estes atalhos mentais.

2.2. A heurística da disponibilidade

A heurística da disponibilidade é uma das mais importantes para perceber o populismo.

Funciona assim:

Quando queremos avaliar a frequência ou a probabilidade de algo, tendemos a julgar com base na facilidade com que nos lembramos de exemplos.

Se ouvimos, dia sim dia não, notícias sobre crimes cometidos por imigrantes, o nosso Cérebro Rápido conclui:

“Se aparece sempre, deve ser muito frequente. Logo, imigrantes são muito perigosos.”

Mesmo que, estatisticamente, a maioria dos crimes seja cometida por nacionais, e a criminalidade esteja estável ou até a descer.

O problema não é a má fé da pessoa comum. É o mecanismo de memória:

  • quanto mais vívida é a imagem,

  • quanto mais repetida é a história,

  • quanto mais emocionalmente carregado é o exemplo,

...mais disponível ele fica para ser evocado. E, logo, mais “verdadeiro” parece.

2.3. Como isto é usado em manipulação

É aqui que entra o populista profissional:

  • escolhe casos extremos (um crime brutal cometido por um imigrante, um caso de fraude num subsídio a uma família cigana, um vídeo de um conflito isolado num bairro periférico);

  • repete-os até à exaustão em discursos, redes sociais, entrevistas;

  • apresenta esses casos como se fossem a norma, não a excepção;

  • associa-os a rótulos fortes (“bandidos”, “aproveitadores”, “invasão”, “colonização inversa”, etc.).

O público, ao fim de meses desta dieta mediática:

  • não calcula percentagens;

  • julga pela memória: “Eu estou sempre a ouvir isto, deve ser a realidade”.

O mesmo se aplica a outros temas:

  • “corrupção” apresentada sempre como sinónimo exclusivo de “os outros partidos”;

  • “subsídios” apresentados como algo que só vai para minorias estigmatizadas;

  • “criminalidade” associada sistematicamente a determinados grupos étnicos ou nacionais.

Não é preciso uma grande conspiração. Basta repetir, com força e histeria, sempre os mesmos exemplos. A heurística da disponibilidade trata do resto.

 

3. A falácia genética: matar o argumento pela origem

Outra peça central na caixa de ferramentas da manipulação é a falácia genética.

A falácia genética consiste em julgar uma ideia, não pelo seu conteúdo, mas pela sua origem. Ou seja: em vez de analisarmos o que é dito, atacamos de onde vem.

Funciona mais ou menos assim:

“Isto vem da ONU, logo é globalismo perigoso.”

“Isto vem dos ‘media do sistema’, logo é mentira.”

“Isto vem de um cigano / imigrante / activista, logo não presta.”

“Isto vem de Bruxelas, logo é contra o povo.”

“Isto vem do Chega, logo é lixo – sem sequer olhar para os dados.”

No plano da argumentação, é uma falácia porque:

  • não responde ao conteúdo da afirmação;

  • não discute dados, lógica, factos;

  • apenas recusa a ideia com base no “quem” ou no “onde”.

“Se vem daquele grupo, não presta.” Ponto final. Acabou o diálogo.

3.1. Impactos sociais da falácia genética

Quando esta forma de raciocínio se instala, acontecem várias coisas perigosas:

Polarização tribal

A sociedade divide-se em blocos que já não discutem ideias, apenas identidades:

  • “Nós” vs “eles”

  • “O povo” vs “o sistema”

  • “Os limpos” vs “os corruptos”

Desumanização de grupos inteiros

Se tudo o que vem de “imigrantes”, “ciganos”, “muçulmanos”, “bruxelenses”, “jornalistas”, “políticos” for, à partida, lixo, então:

  • deixa de haver espaço para nuances;

  • legitima-se a exclusão, o ódio, até a violência simbólica (e, às vezes, física).

Morte do pensamento crítico

A pessoa deixa de perguntar:

  • “Isto é verdadeiro?”

  • “Que dados o sustentam?”

  • “Que contexto falta aqui?”

E passa a perguntar apenas:

  • “Quem disse?”

  • “É dos meus ou dos deles?”

Desmoronamento do espaço público comum

Sem um mínimo de realidade partilhada, cada tribo vive no seu universo paralelo de “verdades”. Aí, o jornalismo independente torna-se, aos olhos de uns, “inimigo”; aos olhos de outros, “cúmplice”.

Os populistas adoram a falácia genética. Ela permite-lhes:

  • deitar abaixo jornalistas sem responder a perguntas;

  • deslegitimar instituições democráticas (“tribunais”, “parlamento”, “órgãos de fiscalização”);

  • proteger o seu próprio discurso de qualquer crítica (“se vem dos media, é ataque político”).

 

4. O papel do jornalista: ajudar o público a usar o “Cérebro Demorado”

É aqui que entra a responsabilidade crítica do jornalismo.

Se o populista vive de:

  • atalhos mentais (heurísticas),

  • falácias genéticas,

  • histeria comunicacional,

  • “inundação da zona” com ruído,

...então o jornalista não pode limitar-se a ser um microfone com pernas.

O jornalista tem uma missão fundamental:

Ajudar o público a sair do Cérebro Rápido e a aceder, pelo menos por momentos, ao Cérebro Demorado.

Na prática, isto significa:

4.1. Desmontar a heurística da disponibilidade

  • Contrapor casos isolados com estatísticas globais.

  • Explicar a diferença entre “excepção chocante” e “tendência real”.

  • Dizer, por exemplo:

“Está a citar um caso concreto. Mas, de X crimes registados, apenas Y envolvem estrangeiros, e Z envolvem o grupo que apontou.”

4.2. Expor a falácia genética quando ela surge

  • Não aceitar o “isso é dos media do sistema” como resposta.

  • Perguntar:

“Independentemente de quem traz o dado, é verdadeiro ou falso? Vamos aos números.”

  • Ajudar o público a perceber que o conteúdo de uma afirmação não pode ser descartado apenas pela origem.

4.3. Criar contexto e não apenas choque

  • Explicar o que significam os números.

  • Comparar com outros países, outros períodos, outras categorias.

  • Recusar o jogo do soundbite puro.

4.4. Transformar a entrevista em momento pedagógico

  • Não é só “dar luta” ao entrevistado.

  • É criar condições para que o espectador pense:

“Espera, se calhar não é bem como este senhor diz. Há mais coisa para entender aqui.”

A entrevista deixa assim de ser um combate de vaidades e passa a ser um acto de serviço público: activar a camada mais funda do cérebro colectivo, a nossa capacidade de raciocínio, dúvida e empatia.

 

5. Jornalismo em directo na era do populismo mediático

Porque o jornalismo clássico já não chega para a era do “inundar a zona”.

Em muitas entrevistas de rádio e televisão com líderes populistas, o cenário repete-se: um jornalista experiente, um dirigente treinado em retórica de choque, um estúdio impecável… e aquela sensação amarga de que, mais uma vez, o espaço público foi absorvido por slogans e panfletos, em vez de esclarecido por factos.

O jornalista insiste repetidamente na mesma pergunta, tentando encurralar o político com a táctica clássica da insistência. Ele, por sua vez, faz aquilo que domina: finta a pergunta, desvia, dramatiza, vitimiza-se, interrompe, cria ruído e aproveita cada segundo para despejar propaganda que serve a sua base eleitoral.

O problema não é apenas o político. O problema é que o próprio formato de entrevista, tal como existe, já não é adequado para lidar com responsáveis que jogam segundo regras completamente diferentes.

Esta parte do guia é sobre isso:

  • sobre a estratégia comunicacional dos populistas contemporâneos;

  • sobre as fragilidades estruturais do jornalismo tradicional perante essa estratégia;

  • e sobre como o jornalismo precisa de se reinventar para proteger o espaço público.

5.1. A lógica de Bannon: “inundar a zona” e saturar a verdade

Steve Bannon, ideólogo da campanha de Donald Trump, sintetizou a estratégia num enunciado brutal:

“Flood the zone with shit.” Em tradução fiel: “inundar a zona com porcaria”.

A expressão é chocante, mas precisa. Significa:

  • bombardeamento contínuo de frases,

  • muitas delas falsas, exageradas ou profundamente manipuladas,

  • difundidas a um ritmo tão acelerado que a verificação factual se torna impossível.

O método é descrito como firehose of falsehood — uma mangueira de desinformação.

As características são sempre as mesmas:

  • Volume elevado: dezenas de afirmações por minuto.

  • Repetição incansável: slogans reciclados para criar impressão de verdade.

  • Desprezo absoluto pela factualidade.

  • Proliferação por múltiplos canais: televisão, redes sociais, declarações públicas.

O efeito é devastador: o público deixa de conseguir distinguir verdade de manipulação. E, nesse ambiente nebuloso, o populista prospera — porque oferece certezas emocionais embaladas em falsidades confortáveis.

Ventura faz a versão portuguesa desta técnica: um misto de afirmações inflamadas, números soltos, ataques à imprensa, referências moralistas e casos anedóticos apresentados como se fossem estatísticas nacionais. 5.2. A economia do soundbite e a corrupção da missão jornalística

Há um ponto incómodo que raramente é dito em voz alta: o populismo não vive sozinho. Ele prospera porque a própria Comunicação Social, muitas vezes, se organizou para beneficiar do mesmo tipo de linguagem que o populista domina – o soundbite.

Num mercado mediático em que quase tudo se mede em:

  • audiências ao minuto,

  • cliques,

  • partilhas nas redes sociais,

o soundbite perfeito tornou-se uma espécie de moeda de ouro:

  • é curto, fácil de cortar e repetir;

  • é emocional, gera choque, raiva, riso ou indignação;

  • dá títulos prontos: “arrasa”, “esmaga”, “confronto explosivo”.

A consequência é devastadora: em vez de serem desenhadas para esclarecer, muitas entrevistas passam a ser, na prática, fábricas de momentos virais. O critério deixa de ser “o público compreendeu melhor o assunto?” e passa a ser “ficou algum clip forte para o telejornal, para o site, para as redes?”.

É aqui que a lógica comercial começa a corroer a lógica democrática. Não se trata, na maioria dos casos, de corrupção no sentido clássico – não há um envelope a mudar de mãos. Mas há uma forma de corrupção da missão: o jornalismo deixa de ter como centro o direito do cidadão a ser informado e passa a ter como centro a necessidade do canal de manter atenção, cliques e “engajamento”.

Nessa transformação silenciosa, o populista ganha um aliado involuntário: o próprio formato mediático. O político que grita, simplifica e atira números soltos rende mais, em termos de atenção, do que o responsável que fala devagar, explica, contextualiza e admite dúvidas. A histeria e o soundbite passam a ser premiados pelo sistema.

Tudo isto tem ainda um efeito colateral devastador: vai destruindo, pouco a pouco, o respeito do público pelo próprio jornalismo. Quando as pessoas se habituam a ver debates em modo gritaria, entrevistas montadas como lutas livres e títulos pensados mais para criar polémica do que para informar, a mensagem que recebem é simples: “isto já não é para me esclarecer, é para me entreter e manipular”.

É nesse ambiente que ganha força a palavra “jornalixo”. O termo é usado por populistas para descredibilizar qualquer escrutínio que não lhes agrade, mas também é usado por cidadãos comuns que, muitas vezes com razão, sentem que uma parte da Comunicação Social se rendeu ao espectáculo. O problema é que esta etiqueta não distingue: cola no mau jornalismo e no bom, no trabalho sério e na porcaria, corroendo a confiança em bloco.

Assim, cria-se um círculo vicioso: faz-se espectáculo para ganhar atenção; o público sente-se enganado e passa a desconfiar; essa desconfiança é explorada pelos populistas (“não acreditem nos media, só em mim”); e, para recuperar audiência, alguns órgãos respondem com ainda mais histeria e soundbites. No fim, perde quase toda a gente – excepto quem vive precisamente desse clima de suspeita generalizada.

5.3. Porque é que o modelo clássico pergunta–resposta falha com populistas

O jornalismo tradicional assume um contrato implícito:

  • o jornalista pergunta;

  • o entrevistado responde;

  • há respeito mútuo pelos turnos de fala;

  • a divergência processa-se dentro da racionalidade.

Esse contrato morreu. O populista não está ali para responder. Está ali para controlar o palco.

Os comportamentos típicos incluem:

  • fuga sistemática às perguntas;

  • ziguezague temático (imigração → corrupção → “os ciganos” → Europa → saúde → criminalidade → religião);

  • interrupções constantes;

  • acusações de parcialidade dirigidas ao jornalista;

  • vitimização teatral;

  • uso obsessivo de soundbites para cortes televisivos e redes sociais.

Se o jornalista permanecer no formato clássico — linear, paciente, neutro — está derrotado à partida. As regras do jogo já foram alteradas pelo entrevistado.

5.4. Não é uma conversa: é um confronto assimétrico

O populista não desempenha o papel de “político duro” — desempenha o papel de operador mediático.

Ele sabe que:

  • o confronto favorece-o;

  • a agressividade mobiliza os seus apoiantes;

  • o jornalista teme parecer parcial;

  • o caos beneficia quem controla a emoção, não quem tenta manter a razão.

Assim, cria-se uma assimetria perigosa:

  • o populista precisa apenas de reforçar a crença dos seus;

  • o jornalista sente a pressão para manter a “imparcialidade”;

  • o populista comunica com slogans;

  • o jornalista tenta comunicar com factos.

Quando este desequilíbrio não é reconhecido, a entrevista transforma-se numa encenação ao serviço do populista.

 

6. A alternativa: o “ziguezague inteligente”

Aqui chegamos ao ponto-chave: o jornalista não deve seguir o desvio — mas deve acompanhar o ritmo.

Parece contraditório? Não é.

6.1. O populista ziguezagueia para fugir. O jornalista ziguezagueia para caçar.

É assim que funciona.

Quando o populista muda de tema, o jornalista não segue o novo tema, mas muda a forma da pergunta mantendo a substância inicial.

Exemplo prático

Pergunta inicial:

“Quantos imigrantes do Bangladesh recebem subsídios do Estado?”

Ventura responde com o habitual: fala de ciganos, do PS, da corrupção, da TAP, da Europa, de tudo menos da pergunta.

O jornalista habitual repete:

“Peço-lhe que responda à pergunta inicial…”

Isto não funciona.

O jornalista preparado responde:

“Mencionou agora subsídios, ciganos e imigração ilegal. Comecemos pelo primeiro ponto que trouxe: quantos ciganos recebem subsídios? Número exacto, por favor.”

Repare-se:

  • não se muda o tema original (subsídios e imigração);

  • mas muda-se a porta de entrada;

  • o jornalista usa as palavras do entrevistado para apertar o cerco factual.

Este é o ziguezague inteligente: não é linear, mas não abdica da agenda factual.

E, se houver nova fuga — melhor ainda. Cada fuga é uma oportunidade para outra pergunta concreta.

 

7. Como lidar com interrupções, gritos, insultos e vitimização

Quando pressionado, o populista avança para o manual da histeria.

7.1. Interrupções

Nas entrevistas com populistas, as interrupções não são um “acidente de temperamento”. São uma técnica. Servem para:

  • partir o raciocínio do jornalista;

  • impedir perguntas completas;

  • bloquear esclarecimentos difíceis;

  • transformar a entrevista num ringue onde “quem fala mais alto ganha”.

Por isso, o jornalista não pode tratar as interrupções apenas como “má educação”. Tem de as entender como táctica – e responder com método.

7.1.1. Estabelecer o enquadramento logo no início

Sempre que o formato o permita, é útil que o jornalista, ao abrir a entrevista, deixe claro – de forma breve – que:

  • haverá tempo suficiente para perguntas e respostas;

  • não se fala por cima de forma sistemática;

  • o objectivo é o esclarecimento do público.

Não é preciso fazer um “discurso de regras”, mas pequenas frases ajudam a marcar o terreno:

“Obrigado por ter vindo. Temos cerca de X minutos, com tempo para perguntas e respostas claras, para que o público possa acompanhar.”

Isto não resolve tudo, mas prepara a percepção do espectador: ele sabe que há uma expectativa de ordem. Quando o entrevistado começar a atropelar, torna-se mais visível quem está a quebrar esse acordo implícito.

7.1.2. Não tentar falar mais alto

Reflexo típico: o entrevistado interrompe, o jornalista tenta “aguentar” por cima, os dois falam em simultâneo, o som fica caótico.

Resultado:

  • o público não percebe nada;

  • o populista ganha a imagem de “combativo”;

  • o jornalista parece frágil e nervoso.

Primeira regra: quando o entrevistado começa a falar por cima, o jornalista cala-se.

  • Pára a frase a meio.

  • Mantém o olhar firme.

  • Deixa-o falar alguns segundos.

Isto tem três efeitos:

  • mostra ao espectador quem está a atropelar;

  • quebra o jogo de “dois a falar ao mesmo tempo”;

  • prepara o terreno para η intervenção seguinte do jornalista, com mais autoridade.

Depois desse curto silêncio, o jornalista entra com uma frase curta, calma, quase técnica:

“Agora é a minha vez de falar. Eu ouvi-o; peço que me ouça.”

Ou:

“Deixe-me terminar a pergunta. Depois terá todo o tempo para responder.” E se o entrevistado ficar a falar sem parar?

Há, porém, um risco real: o entrevistado pode aproveitar o silêncio para engatar num monólogo longo. Se isso acontecer, o que era uma boa táctica inicial (deixar ver quem está a atropelar) transforma-se num presente oferecido ao populista: ganha minutos de antena em modo comício, sem perguntas, sem confronto, sem escrutínio.

Por isso, o silêncio do jornalista tem de ser curto e estratégico, não uma rendição. Depois de alguns segundos, assim que o entrevistado faz uma pausa respiratória ou fecha uma ideia, o jornalista deve recuperar a palavra, com calma mas com firmeza, e recentrar a entrevista. Por exemplo:

“Já o ouvimos sobre esse ponto. Agora preciso que responda à pergunta que continua por esclarecer: …”

ou:

“Tem tido espaço para expor a sua posição. O que está em falta não é mais tempo de antena, é a resposta a esta pergunta concreta: …”

Desta forma, evita-se o pior dos cenários: uma entrevista onde o populista fala quase sozinho, o jornalista parece mero adereço e o público é reduzido a plateia de comício em directo.


7.1.3. Nomear o comportamento, não a pessoa

Evita-se o ataque pessoal do tipo “está a ser mal-educado” ou “não tem respeito”. Isso só alimenta a narrativa de perseguição.

Em vez disso, descreve-se o comportamento de forma neutra:

“Está a interromper sucessivamente as perguntas.”

“Assim, o público não consegue ouvir nem a pergunta nem a resposta.”

“Peço-lhe que me deixe terminar a frase e, depois, responda.”

Quando o jornalista fala em nome do público (“o público não consegue ouvir”), retira-se do duelo de egos e recentra-se a legitimidade: não é uma questão de orgulho pessoal, é uma questão de serviço.

7.1.4. Distinguir interrupção pontual de padrão sistemático

Nem toda a interrupção é grave. Em televisão em directo há emoção, há nervos, há sobreposição natural. O problema é quando se torna padrão.

Sugestão prática para o jornalista:

  • 1.ª interrupção: gerir com elegância (“deixe-me só concluir”).

  • 2.ª e 3.ª: já se nomeia claramente o comportamento.

  • A partir daí, assume-se uma posição firme:

“Não vamos conseguir cumprir o objectivo da entrevista se continuar a interromper desta forma. Peço-lhe, mais uma vez, que aguarde pela pergunta até ao fim.”

Isto prepara o terreno para medidas mais fortes (pausa, encerramento), se for necessário.

7.1.5. Usar a linguagem corporal como âncora

Interrupção constante é também um jogo de corpo: inclinar-se para a frente, invadir o espaço, gesticular em excesso.

O jornalista não controla o corpo do outro, mas controla o seu:

  • postura direita, mas não agressiva;

  • olhar directo, não desafiante;

  • mãos em posição neutra (evitar gestos nervosos e “apontar o dedo”).

A combinação de:

  • entrevistado agitado, a gesticular e a interromper; e

  • jornalista calmo, imóvel, a olhar firme e a esperar,

...cria, no ecrã, uma narrativa visual clara: quem está a fugir ao jogo normal da conversa não é o jornalista.

7.1.6. Reforçar o papel do tempo

Outra táctica do populista é usar as interrupções para dizer depois: “não tive tempo de responder”.

O jornalista pode neutralizar isto com frases que:

  • reconhecem o direito de resposta;

  • lembram que o tempo existe, mas que tem de ser usado com regras.

Por exemplo:

“Temos tempo para responder a esta pergunta. O que não podemos é gastar esse tempo em interrupções. Deixe-me terminar e depois responda com calma.”

Ou:

“Se não interromper, conseguirá explicar o seu ponto de vista com toda a clareza. É isso que o público espera.”

Aqui volta-se a trazer o espectador para o centro: o tempo de antena não é um brinquedo do entrevistado, é um recurso ao serviço de quem vê e ouve.

7.1.7. Não deixar a interrupção desviar o conteúdo

Interrupções constantes costumam vir acompanhadas de outro truque: desviar o tema.

Exemplo:

Jornalista: “Quantos casos concretos de corrupção denunciou…”

Entrevistado interrompe: “A questão aqui não é essa, a questão é que os outros partidos…”

Se o jornalista cede ao desvio, a interrupção cumpriu o seu papel.

A resposta eficaz é em dois tempos:

  1. Tratar a forma: “Deixe-me só terminar a pergunta, por favor.”

  2. Travar o desvio: “Perguntei-lhe algo muito concreto: em quantos casos concretos de corrupção se constituiu como assistente? Esse ponto ainda não ficou respondido.”

Ou seja:

  • não se entra no tema novo;

  • não se cede ao “mas e os outros?”;

  • traz-se a conversa de volta à pergunta original.

Se for preciso, repete-se o padrão: interrupção → nomear → recentrar na pergunta.

7.1.8. Articulação com a realização (na televisão)

Sempre que possível, o jornalista deve ter uma coordenação prévia com a equipa de realização:

  • câmaras que alternem entre o entrevistado a interromper e o jornalista em silêncio à espera;

  • microfones que não “premeiem” quem fala por cima (evitar longos segundos de sobreposição sonora);

  • possibilidade de, em último caso, baixar o volume geral e deixar apenas a voz do jornalista a reenquadrar.

Isto depende das opções editoriais e técnicas de cada canal, mas é importante que a redacção pense nisto antes, não em desespero durante.

7.1.9. Quando a interrupção se torna abuso

Há um ponto em que a interrupção deixa de ser “conversação viva” e passa a ser violação deliberada do formato.

Sinais de alarme:

  • o jornalista já não consegue formular uma pergunta inteira;

  • o entrevistado fala por cima da quase totalidade do tempo;

  • o público já não percebe o fio à meada.

Aqui, a sequência pode ser:

  1. Aviso claro: “Se continuar a interromper desta forma, não vamos conseguir prosseguir a entrevista.”

  2. Se nada mudar: “Assim, vamos fazer uma pequena pausa para repor a ordem na conversa. Voltamos já de seguida.”

  3. Se, mesmo depois da pausa, o padrão continuar, entra-se no cenário de encerramento da entrevista (articulado depois no ponto 7.6).

O importante é que o jornalista não pareça agir por impulso, mas como quem segue uma linha coerente:

  • avisa,

  • insiste,

  • protege o público,

  • e, se necessário, usa os mecanismos do formato (pausa, fim, enquadramento posterior).

7.2. Gritos

Objectivo: Arrastar a conversa para o plano emocional.

Quando o populista sente que está encurralado por perguntas concretas ou por dados que não domina, uma das fugas mais previsíveis é subir o volume. Grita, atropela sílabas, fala por cima, teatraliza indignação. Não é um acaso: é técnica.

Na televisão, o grito tem sempre dois efeitos:

  • Emociona quem já está do lado dele – o seguidor interpreta o grito como coragem, frontalidade, “ele diz o que pensa”.

  • Desestabiliza o jornalista – o aumento de tom é também uma forma de intimidação e desgaste.

O objectivo é simples: deixar de discutir factos e entrar numa guerra de nervos.

Se o jornalista responde com o mesmo registo – exaltando-se, levantando a voz, entrando no “tu cá, tu lá” – o populista vence por definição, porque é esse o seu habitat natural: o conflito emocional, o espectáculo, a sensação de “barraco político”.

Porque é que o grito funciona bem na televisão

O grito ocupa o espaço. Numa entrevista em estúdio:

  • os microfones apanham tudo,

  • o espectador em casa sente um “choque” sensorial,

  • a atenção desloca-se do conteúdo para o conflito.

Quem grita dá ao seu público a sensação de que está “a lutar” contra o sistema, contra o jornalista, contra o mundo. O conteúdo da frase até pode ser vazio; o gesto chega para alimentar a narrativa de combate.

Por isso é que, para quem manipula, o grito é uma arma barata e eficaz.

O que o jornalista deve fazer perante o grito

A regra de ouro é não entrar no mesmo registo. O jornalista não pode concorrer com o volume do entrevistado; tem de concorrer com a autoridade serena.

A resposta deve ser algo deste género:

“Não é necessário elevar o tom. Volume não é argumento. Voltemos à pergunta: …”

Há aqui três movimentos importantes:

  1. Nomear o comportamento: O jornalista diz claramente que o tom está a ser elevado em excesso.

  2. Deslegitimar o grito como forma de argumentar: A frase “volume não é argumento” é crucial.

  3. Reancorar na pergunta: “Voltemos à pergunta: …” É um gesto de regresso ao campo racional.

O jornalista, assim, recusa o convite para o ringue emocional e reafirma que o centro da entrevista são as perguntas, não o espectáculo.

Linguagem corporal e tom de voz

Não é só o que se diz; é como se diz.

  • O jornalista deve manter o tom baixo, firme e estável.

  • Não rir nervosamente, não suspirar, não revirar os olhos.

  • O contraste entre um entrevistado aos gritos e um jornalista calmo, insistente, mas controlado, é extremamente poderoso aos olhos do espectador. Sem uma única palavra extra, o público intui quem perdeu o controlo.

Quando o grito se torna intimidação

Há situações em que o entrevistado não está apenas a elevar a voz, mas a tentar impor-se fisicamente. Nesse caso, para além da frase “Não é necessário elevar o tom”, pode ser necessário acrescentar:

“Peço-lhe que mantenha a calma e a distância. Estamos aqui para conversar, não para gritar.”

Se, mesmo assim, o comportamento continuar a escalar, é legítimo o jornalista avisar:

“Se não baixarmos o tom, teremos de interromper a entrevista.”

É uma forma de dizer ao entrevistado e ao público que há limites e que a emissão não está refém de quem grita mais.

Exemplos de resposta em contexto

Populista (a gritar): “ISTO É UMA VERGONHA, VOCÊS SÃO TODOS IGUAIS, A TELEVISÃO É UMA MENTIRA!”

Jornalista (tom calmo): “Não é necessário elevar o tom. Volume não é argumento. O que lhe perguntei foi algo muito concreto: em quantos casos concretos de corrupção se constituiu como assistente? Pode responder, por favor?”

Se ele insistir no grito:

“Se continuar neste registo, não vamos conseguir ter uma conversa minimamente clara. Peço-lhe novamente que baixe o tom e responda à pergunta.”

“Quem grita perde”

A frase “quem grita perde” não é apenas um dito moral. É um princípio prático de comunicação democrática:

  • quem grita mostra que não confia na força dos seus argumentos;

  • quem grita tenta substituir razão por intimidação.

O jornalista, se se mantiver calmo e focado, permite que o próprio entrevistado se desmascare.

7.3. Acusações de parcialidade

Objectivo: Deslegitimar a pergunta.

Quando o populista se sente apertado por uma pergunta factual, uma das armas preferidas é atacar o mensageiro:

“Você está a fazer campanha contra mim.”

“Esta televisão é toda de esquerda / do sistema.”

“As suas perguntas são tendenciosas.”

Esta táctica é uma forma específica da falácia genética: em vez de discutir se a pergunta é legítima, o entrevistado tenta desvalorizá-la com base em quem a faz.

Como funciona esta arma retórica

A acusação de parcialidade serve vários propósitos:

  • Mudar o foco: O tema deixa de ser a pergunta concreta e passa a ser o jornalista.

  • Colocar o jornalista na defensiva: Obriga-o a justificar-se (“não, eu não sou parcial...”).

  • Reforçar o vínculo com a base de apoio: O populista aparece como vítima heroica de um sistema hostil.

  • Minar a confiança do público nos media: Mesmo quem não é seguidor fica com a dúvida plantada.

O que o jornalista deve fazer

O pior que o jornalista pode fazer é cair na armadilha de discutir o seu próprio carácter. A resposta eficaz tem de:

  • recusar o rótulo sem entrar em histeria;

  • recentrar a conversa no conteúdo da pergunta;

  • mostrar ao público que a questão é factual, não pessoal.

Algumas linhas úteis:

“Esta pergunta não depende da minha opinião, mas de factos.”

“Qualquer espectador, independentemente das suas opiniões políticas, tem direito a ouvir a resposta.”

“Se a informação estiver do seu lado, tanto melhor para si — responda e esclareça.”

Se o entrevistado insistir:

“Podemos discutir a cobertura dos media noutra altura, mas agora estou a perguntar-lhe algo muito concreto. Repito a pergunta: …”

Exemplos de resposta em situação real

Populista: “Você está a fazer um interrogatório político. Isto é parcialidade!”

Jornalista: “Estou a fazer o mesmo tipo de perguntas que faria a qualquer líder partidário com as responsabilidades que o senhor tem. Não é uma questão de simpatia ou antipatia; é uma questão de escrutínio. A pergunta é simples: em quantos casos concretos de corrupção se constituiu como assistente? Pode dizer-nos?”

Se ele voltar a atacar o jornalista:

“As críticas que faz à imprensa são legítimas e podem ser discutidas, mas não substituem a resposta. Os espectadores merecem ouvir factos, não apenas opiniões sobre jornalistas. Voltemos à questão: …”

7.4. Vitimização teatral

“Não me deixam falar!”

“Isto é censura!”

Resposta:

“Tem todo o tempo para responder. O que não está a fazer é responder.”

E volta-se à pergunta concreta.

7.5. Situação-limite: pausar a entrevista

É raríssimo, mas poderosíssimo.

Pausar uma entrevista em directo não deve ser a primeira opção, mas também não pode ser um tabu. Em certos momentos, é a única forma de recuperar o controlo, proteger o público e expor quem está a transformar o espaço mediático num circo.

A frase-chave é simples:

“Vamos fazer uma pequena pausa para repor a ordem na conversa.”

Quando é que faz sentido pausar?

A pausa é um remédio de último recurso, adequado quando:

  • o entrevistado interrompe sistematicamente, apesar de vários avisos;

  • grita ou fala por cima de forma contínua, impedindo qualquer pergunta inteligível;

  • há sucessão de insultos pessoais ao jornalista;

  • o caos já é tal que o espectador deixou de perceber o que se passa.

Em resumo: quando a entrevista deixou de ser entrevista e passou a ser apenas ruído agressivo em directo.

O que a pausa comunica

Ao dizer “vamos fazer uma pequena pausa para repor a ordem”, o jornalista:

  • Assume liderança: Mostra que quem manda no formato não é o convidado, é o canal.

  • Protege o espectador: Diz, na prática: “Não estamos aqui para vos despejar gritos em cima.”

  • Expõe o comportamento do entrevistado sem insultos: A própria necessidade de “repor a ordem” mostra que alguém a quebrou.

Como fazer a pausa (passo a passo)

  1. Aviso prévio (idealmente): O jornalista já deve ter dito algo como: “Se continuar a interromper desta forma, não vamos conseguir prosseguir a entrevista.”

  2. Anúncio da pausa: No momento em que fica claro que não há condições: “Assim, vamos fazer uma pequena pausa para repor a ordem na conversa. Voltamos já de seguida.” (Tom calmo, neutro).

  3. Saída para intervalo. Fora do ar, pode ser reiterado ao convidado: “Se quiser continuar, terá de respeitar as regras básicas.”

  4. Regresso do intervalo (se a entrevista continuar): “Estamos de volta. Fizemos uma pausa para tentar recentrar a conversa. Como dissemos, o objectivo é que os espectadores possam compreender perguntas e respostas com clareza. Vamos prosseguir.” E volta-se directamente à última pergunta concreta.

E se o entrevistado não mudar de comportamento?

Se, mesmo após a pausa, o caos continuar, a pausa serviu como último aviso antes da decisão seguinte: terminar a entrevista (ver 7.6).

Riscos e como os neutralizar

Obviamente, o populista vai tentar usar a pausa como “prova” de censura (“Até me cortaram a entrevista!”).

É por isso que a pausa tem de ser curta, justificada em antena, e seguida de um resumo factual do que se passou (por exemplo, num segmento posterior ou no site do canal), relembrando as perguntas que ficaram por responder.

Em suma: pausar uma entrevista é gesto raro, mas necessário. Não é um acto de censura; é um acto de higiene do espaço público.

7.6. Quando a entrevista termina ou o entrevistado abandona o estúdio

Há dois cenários extremos que o jornalista tem de prever:

  1. A entrevista torna-se incomportável e tem mesmo de terminar;

  2. O entrevistado decide sair teatralmente, em directo.

Em ambos os casos, o populista tentará usar o momento a seu favor (vitimização, "censura"). A forma como o jornalista gere esse instante é decisiva.

a) Quando a entrevista tem mesmo de terminar

Isto acontece porque o entrevistado recusa sistematicamente responder, insulta, ou tornou impossível qualquer esclarecimento.

O que o jornalista deve fazer em directo:

  1. Assumir o controlo da decisão: “Neste momento não estão reunidas as condições mínimas para continuar esta entrevista.”

  2. Explicar a razão (factualmente): “O convidado tem recusado responder às perguntas e tem repetidamente quebrado as regras estabelecidas, com interrupções constantes. Por respeito ao público, vamos terminar por aqui.” (Sem adjectivar a pessoa; apenas descrever comportamentos).

  3. Recentrar no público: “Os espectadores merecem clareza e não confusão. A entrevista não está a cumprir esse objectivo, pelo que a damos por encerrada.”

  4. Fechar com serenidade: O jornalista olha para a câmara e encerra o segmento num tom neutro.

O que o canal deve fazer depois: preparar uma peça de seguimento, explicando o que ocorreu e relembrando as perguntas que ficaram por responder, fazendo fact-check às afirmações proferidas.

b) Quando o entrevistado sai teatralmente

Este é o cenário de sonho do populista: levantar-se, tirar o microfone e sair do estúdio em directo, para depois explorar o momento nas redes como prova de “coragem” e “vitimização”.

O que o jornalista não deve fazer:

  • Correr atrás dele, literal ou simbolicamente;

  • Gritar “volte aqui”;

  • Reagir com ofensa pessoal.

O que o jornalista deve fazer no momento em que ele sai:

  1. Deixar sair, sem o impedir.

  2. Falar para a câmara, não para as costas do entrevistado: “O convidado optou por abandonar a entrevista em directo, em vez de responder às perguntas que lhe estavam a ser colocadas.”

  3. Relembrar, de forma concreta, o que ficou por responder: “Ficaram sem resposta, entre outras, as questões sobre: quantos casos concretos de corrupção denunciou; em quantos processos se constituiu como assistente; etc.” (Isto transforma a saída teatral num inventário público de fugas).

  4. Reafirmar o compromisso com o público: “O nosso compromisso é com o escrutínio e com o direito do público a obter respostas. Continuaremos a colocar estas perguntas.”

Geridos desta forma, estes momentos extremos comunicam que o espaço mediático tem regras e que fugir às perguntas não dá direito a controlar a narrativa.

 

8. A chave de tudo: preparação radical

Este modelo exige trabalho real:

  • ver e rever entrevistas anteriores;

  • mapear contradições;

  • registar números frequentemente citados;

  • verificar tudo;

  • preparar várias perguntas por cada tema sensível: imigração, criminalidade, subsídios, corrupção, casos dentro do próprio partido.

O jornalista, num cenário destes, não é um moderador: é um investigador em directo.

 

9. O objectivo não é “vencer” — é proteger o espaço público

O propósito de tudo isto não é destruir o entrevistado, nem humilhá-lo. É garantir que:

  • o espaço público não é capturado pela propaganda,

  • o público sabe quem esclarece e quem manipula,

  • a verdade factual mantém um lugar na conversa democrática.

A entrevista é um instrumento de escrutínio — não um espectáculo para reforçar tribos.

 

DEPOIS DA ENTREVISTA

  • Publicar fact-check detalhado.

  • Indicar explicitamente as perguntas que ficaram sem resposta.

  • Reforçar, no sítio da estação ou no telejornal seguinte, a factualidade que foi manipulada.

REGRA DE OURO

O jornalista não está ali para vencer o entrevistado.

Está ali para impedir que o entrevistado vença o público através da manipulação.

Quando a entrevista deixa de ser palco e volta a ser escrutínio, a democracia respira melhor.

 

10. O erro do pós-entrevista: claques partidárias, “notas” de performance e o negócio do comentário

Em muitos programas, a seguir a uma entrevista dura, entra um “painel de comentadores”: um do PS, um do PSD, um do Chega, etc. À primeira vista, parece equilíbrio democrático. Na prática, é um erro grave – sobretudo quando lidamos com populistas que vivem de distorcer o espaço público.

10.1. Do escrutínio à claque: a falácia genética em direto

O propósito de uma boa entrevista é expor factos e testar a coerência do entrevistado. Quando, logo a seguir, entram comentadores partidários, a lógica muda imediatamente:

  • Já não é “o entrevistado respondeu ou não respondeu?”;

  • Passa a ser “o nosso lado ganhou ou perdeu?”.

O espaço deixa de ser de escrutínio e passa a ser de claque.

Na prática, isto institucionaliza a falácia genética que o guia descreveu: o foco deixa de estar nos factos e passa a estar na origem da opinião (“Quem comentou?”, “É dos meus ou dos deles?”).

O público deixa de perguntar “Mentiu ou foi exacto?” e passa a perguntar “O que é que diz o meu lado sobre isto?”. O pós-entrevista, em vez de clarificar, transforma-se em combustível para a narrativa populista tribal.

10.2. Porque é que o pós-entrevista deve ser exclusivamente jornalístico

Se o objectivo é informar o público – não entreter a claque – então o período imediatamente a seguir à entrevista devia ser tratado como extensão do jornalismo.

Isso implica que quem fala são jornalistas com preparação factual (e não comentadores partidários), e que se fala sobre:

  • perguntas que ficaram sem resposta;

  • dados que foram citados de forma errada ou manipuladora;

  • contradições com declarações anteriores;

  • omissões relevantes.

O foco não é “quem ganhou o debate”, mas sim “o que ficou esclarecido?” e “o que foi distorcido?”. É uma espécie de mini fact-check em directo, feito por jornalistas.


10.3. O negócio paralelo do comentário

Há ainda uma camada que quase nunca é discutida em público: o comentário político transformou-se, ele próprio, numa espécie de profissão autónoma.

Em muitos canais, o “comentador” passou a ser uma figura fixa, com presença semanal ou quase diária, construída não tanto pelo trabalho jornalístico que faz no terreno, mas pela visibilidade em estúdio, em cima de imagens e declarações produzidas por outros. Aos olhos do público, quem aparece a comentar acaba muitas vezes por ter mais poder simbólico do que quem investigou o tema ou conduziu a entrevista.

Essa exposição mediática cria um capital próprio:

  • convites pagos para moderar debates e conferências;

  • participação remunerada em mesas-redondas e fóruns;

  • presença em eventos patrocinados;

  • oportunidades para livros, colunas, programas onde a figura do comentador passa a ser a “marca”.

Nada disto é, por si, ilegal ou necessariamente imoral. Mas gera um incentivo perverso: quanto mais visível e “marcante” for o comentador, maior é o seu valor no mercado. E, num ambiente dominado pelo soundbite, ser “marcante” significa, muitas vezes:

  • dramatizar mais;

  • simplificar mais;

  • falar mais alto;

  • procurar a frase que fira, choque ou circule nas redes sociais.


Criou-se assim um negócio paralelo que vive da exposição e da fama. E quando esse negócio invade o espaço imediatamente a seguir às entrevistas, há um conflito de interesses evidente: o mesmo ecossistema que devia ajudar o público a perceber se o entrevistado foi honesto e rigoroso é também o ecossistema que ganha com a amplificação do ruído, da polémica e da histeria.

O comentário político pode ser legítimo e útil. Mas, quando depende da celebridade e do cachet, deixa de ser neutro em relação à qualidade do debate público. Nesse contexto, quanto mais a entrevista for tratada como espectáculo, melhor para o comentador – e pior para o cidadão.

10.4. O truque das “notas” – quando o jornalista vira professor

Outra prática enganadora é a mania de “dar notas” ao entrevistado (“Hoje esteve a um 12”, “Foi uma entrevista 8/10”). À superfície, parece rigoroso. Na realidade, é um truque perigoso:

  • Transforma escrutínio em espectáculo: O foco muda do conteúdo (factos, fugas) para a performance (“foi convincente”, “teve frases fortes”). O debate vira um concurso de talentos.

  • Recentra a atenção no jornalista: O jornalista vira personagem, um "professor" que avalia, em vez de um mediador ao serviço do público.

  • É subjectivo e instrumentalizável: O populista usará uma nota baixa como "prova" de perseguição ("foi um 4 dado pelo sistema"), desviando a atenção dos factos para a suposta injustiça da nota.

10.5. O que devia acontecer no pós-entrevista

Em vez de painéis partidários e de “notas” de espectáculo, o período pós-entrevista devia ser:

  1. Breve recap jornalístico: Relembrar os temas, as perguntas cruciais e as evasões óbvias (“Nesta pergunta não respondeu e desviou...”).

  2. Esclarecimento factual mínimo: Corrigir em antena dados errados, com fonte clara (“O entrevistado afirmou X. Segundo os dados oficiais de Y, o valor correcto é Z.”).

  3. Remissão para fact-check aprofundado: Avisar o público de que haverá uma peça mais detalhada no site ou no bloco seguinte.


Entregar a análise imediata a claques partidárias é um presente para o populista, pois troca a clareza factual pela disputa tribal. Da mesma forma, "dar notas" ao entrevistado transforma o jornalismo em espectáculo e desvia o foco do essencial: a honestidade das respostas.

O jornalismo não é uma sala de aula onde o político é aluno e o jornalista é professor. O jornalismo é a ponte (exigente) entre o poder e o público. É essa ponte que o populismo tenta dinamitar – e é essa ponte que um bom pós-entrevista, sóbrio e factual, tem de ajudar a reconstruir. Porquê este Guia?


Num tempo em que o populismo vive de ruído e histeria, o perigo real para a democracia não é apenas termos maus políticos: é deixarmos que a manipulação capture o espaço público e atrofie, pouco a pouco, a nossa capacidade colectiva de pensar. É neste sentido que precisamos, mais do que nunca, de jornalistas profissionais e de um serviço público de jornalismo independente, cuja função primordial é neutralizar a manipulação informativa e devolver aos cidadãos o direito de saber o que se passa, para poderem assumir plenamente a sua condição de cidadãos — e não a de marionetas. Porque, a longo prazo, manipular sistematicamente a informação é uma forma de terrorismo de Estado: uma subversão lenta, silenciosa e eficaz da própria ideia de democracia.

 
 
 

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